Sobre Régio

Há algo em José Régio que é completamente fascinante e metafórico. Não falo da sua poesia, que dessa conheço pouco e não tenho suficiente conhecimento de causa para dela falar. No entanto, há sempre umas quantas outras coisas que entretêm um poeta para além daquilo que lhes viria a dar nome e que conhecemos como poesia. Não se deve, no entanto, a isso, o interesse que José Régio demonstrou ter. A par da sua poesia, Régio, de entre outros ofícios, era colecionador. Arte sacra se quisermos, e pudermos resumir as suas coleções em duas palavras. Ex-votos, altares, pinturas e algumas outras coisas que a utilidade ou a falta dela deixou cair o nome em desuso. Salas inteiras cheias de peças e relíquias que lhe iam chegando às mãos e que por elas pagava, muitas das vezes, um balúrdio. Palavra empregue apenas por leigos no que sobre arte se possa falar, pois aos olhos de quem compra, nunca será um balúrdio ou mesmo uma despesa, ficará antes mais próximo de um investimento. Apesar de se estender esta sua coleção por vários andares, e de ser grande o aperto financeiro para suportar esta sua paixão, havia de ser num outro objeto que levaria Régio a demonstrar um dos traços mais peculiares da sua personalidade, e por certo, um dos mais curiosos. Este objeto, longe está de ser considerado uma peça de arte sacra, pelo menos desta arte sacra de tradição católica a que estamos acostumados. Uma cadeira reclinada de traços orientais que repousa por entre outras peças da sua coleção e por entre a mobília como se estivesse a própria cadeira a descansar do peso e do simbolismo que carrega sobre si. Uma cadeira não é, regra geral, um objeto que desperte demasiado interesse a um colecionador. Em primeiro lugar, porque, sendo a cadeira um objeto com uma função muito concreta, será preciso uma maior abstração para ser olhada como uma obra de arte de pleno direito. Em segundo lugar, e não menos importante, porque, sendo uma cadeira, está sujeita a ser alvo de cobiça para um curto repouso ou para uma estadia mais prolongada. Algo que, não se prenderá de maneira nenhuma com as estatuetas de Vénus, com Gioconda ou mesmo com A Fonte, que, depois de muito ter sido enxovalhada, lá encontrou o seu lugar ao sol, pois nestas obras, ninguém pensará fazer outro uso que não o de contemplar e refletir sobre elas. Mas esta cadeira, apesar de ser um objeto de exposição, encontra-se no meio da sala, num lugar onde poderia estar qualquer outra cadeira, vulgar, que o uso corredio não fizessem levar Régio as mãos à cabeça. Não tivesse tido esta um lugar especial na vida do poeta, passaria apenas por mais um particular objeto da sua coleção, ofuscado numa sala que apesar de não muito grande, está cheia de pormenores e detalhes de fazer desviar o olhar. No entanto, na coleção de Régio não há apenas uma destas cadeiras, mas sim duas. Quando as encontrou numa feira de velharias, não tinha dinheiro suficiente para comprar ambas. Levou uma e a outra foi de favor para casa de um amigo que a comprou com a condição de que esta ficaria para Régio assim que ele juntasse dinheiro suficiente para a comprar. Duas cabeças de dragão nos braços e inúmeros detalhes orientais, esta foi a mais cara relíquia adquirida por Régio para a sua coleção pessoal. As duas reencontraram-se mais tarde, assim que José Régio juntou dinheiro para agora a comprar ao amigo que dela tinha, entretanto, feito uso. 


Lateralidade

Esquerda e direita, Direita e esquerda. Comecei por um e logo pelo outro para demonstrar alguma imparcialidade no que respeita a lateralidade. Em primeiro a esquerda depois a direita porque é neste sentido que se escreve, segundo as regras do alfabeto. Em segundo a direita e depois a esquerda, porque conforme a ordem alfabética, D aparece antes do E, pelo que coloquei a direita e só depois a esquerda, ou então, em alternativa, por ter sido o segundo e restante caso possível, uma vez que a sequência esquerda, direita já tinha sido anteriormente utilizada. Dos dois lados que astutamente somos capazes de designar por esquerda e direita, por questões eminentemente práticas de comunicação e orientação, sempre foi a direita o lado que reuniu maior favoritismo, não tivesse este como sinónimos as palavras, correto, íntegro, certo, justo e não fosse esta palavra designar também, de entre outras coisas, a mão que a maior parte da população usa para escrever. De facto, apesar de tão próximos e indissociáveis, os lados esquerdo e direito, não reúnem uma igualdade e apropriação que se esperaria que fosse de um meio para cada lado, bem divididas as coisas, mais ajuste, menos acerto. 
Carregado de uma simbologia mística, que associa a direita e a esquerda a dicotomias como bom e mau, luz e penumbra, sorte e azar, correto e errado e tantas outras coisas que fazem desequilibrar uma balança que se deveria manter sempre em harmonia, como o yin e o yang e que deixam o lado esquerdo em clara desvantagem e na posição menos favorável. As expressões que usamos sempre foram uma boa maneira de refletir sobre o que pensamos, ou pelo menos, de perceber como funciona a cultura na qual fomos embebidos. São mínimas as diferenças entre um e outro. Talvez num estejamos focados no individuo, e noutro, no grupo. No primeiro caso, assumimos a responsabilidade, e no segundo, temos a possibilidade de varrer a culpa para o tapete do vizinho. Quase como o tête-à-tête que tiveram Lamarck e Darwin no seu devido tempo e fundamentado no seu devido contexto. E sobre este último, o grupo, não mais é do que uma espécie de indivíduo médio, que é para o qual todos nós laboramos, dada a impossibilidade de tomar a individualidade de cada um, com todas as suas singularidades, e dissecar a sua apropriação da cultura. O indivíduo médio, curiosa criatura esta, que de certa forma controla as engrenagens do mundo, ou que por estas se deixa controlar, embora não tendo plena consciência disso, pode ser também descrito, com falhas de rigor, como, a maioria, ou ainda, numa sociedade de consumo, como, as massas. Tendo evoluído a palavra, para ser hoje pertencente ao género masculino, mas querendo, todavia, designar todo e qualquer espécime que se considere, o indivíduo, acrescentando-se a este o médio, não é ninguém, e, no entanto, é o que melhor representa o grupo. É para este que trabalham as marcas, e a julgar pelas caraterísticas que o individuo médio deve ter, ele será, sem grandes margens para dúvidas, destro. 
Entrar com o pé direito, embora não passando de uma frase feita, cuja origem e sentido primeiro já se encontram distantes dos nossos dias, mas, que no entanto, reflete esta vontade de fazer do direito um bom pé e um bom presságio para se entrar, física ou figurativamente, em algum lugar, também ele físico ou figurado. É de prever que não se obtenha trabalho tão bem feito se ao invés do pé direito, se entrasse com o esquerdo, pois nunca foi hábito conferir ao esquerdo uma competência e encargo que toda a vida pertenceu ao direito. A concordar com isto está certo que à pessoa da nossa maior confiança se dá o nome de braço direito e nunca, de braço esquerdo. E se deus não tem a mão esquerda, ou tendo-a, faz pouco uso dela, outros haverão, que deixam a direita a descansar e à esquerda dão os trabalhos maiores. 
Os casos não se esgotam por aqui, pois a estas juntam-se as expressões, pessoa às direitas para caraterizar alguém com comportamentos e atitudes de se dar valor. Ao azarento e agoireiro lado esquerdo associam-se, por exemplo, as expressões, um zero à esquerda ou ter dois pés esquerdos. Tanto uma como outra não são propriamente elogios. E a menos que estejamos a falar para um qualquer número entre zero e um, ou para um grande futebolista esquerdino, não é algo simpático de se ouvir. O lado esquerdo está relacionado ao evitável, e ao indesejado, não tivesse a palavra esquerdo como sinónimos, sinistro, desajeitado ou desastrado. Palavras que partilham com canhoto ou esquerdino o rol de significados e sinónimos para esquerdo, o que não me parece de todo justo.


Desprincesação das Histórias

Desde há muito, muito tempo, quase tanto como introduções deste género, que remontam a um tempo não explícito mas que se situa deveras lá para trás, que os príncipes e as princesas habitam os contos e histórias de pequenos e adultos, miúdos e graúdos, que entretém a pequenada e também, não menos do que eles, os crescidos. O motivo monárquico é como que uma garantia de que uma história venha a ter sucesso, ou que pelo menos venha a ser falada e apreciada pelo público. A miudagem, na generalidade, parece apreciar toda e qualquer história que envolva uma certa família real de que o nome nunca se ouvira falar, que vive num castelo muito alto, e cujo reino fica remotamente localizado numa região, que por sorte, também nunca ouvimos falar. É, no entanto, questionável, se este gosto resulta de uma pré-disposição para contos sobre monarcas ou se, em alternativa, a estes se vão habituando depois de perderem a conta à enormidade de vezes que escutaram a mesma receita. Por entre o discurso e o natural desenrolar da ação, imensas hipérboles fazem o leitor ambicionar por momentos a rica vida de uma ou outra personagem.
Pois bem, não fossem as forças repulsas que parecem afastar os orgulhosos defensores e dedicados apoiantes da monarquia, daqueles que dão o corpo às balas pela república, não haveria, aparentemente, nenhum problema em juntar uma fórmula vencedora e simplesmente reproduzi-la de diferentes formas, em diferentes contextos para que os arranjos possíveis de monarcas não se pareçam com aqueles outros de que já ouvimos falar ou cuja história já havíamos lido anteriormente e, que por outras palavras, se dá hoje o nome de plágio ou cópia. Em todo o caso, não se tratará nunca de uma cópia quando por obra do acaso, uma certa monarca, invariáveis vezes pertencente ao género feminino, estando em apuros e por azar não ter por perto nenhuma das suas aias, nenhum criado ou cozinheiro, e não saber onde raio se enfiaram a governanta e o mordomo, precisar desesperadamente de ajuda, de um outro monarca ou de um moço da plebe, também invariáveis vezes do género, masculino, que aspire a conquistar e pedir a mão de tão bela jovem em matrimónio por tamanho e arriscado feito. De facto, não será preciso ir ao fundo do baú para perceber que a fórmula, com alguns cortes, ajustes e alguma mescla, é a mesma em quase todas as histórias de infância sobre príncipes e princesas, aplicada repetidamente.
Sobre estas personagens não recai qualquer problema sobre o facto de serem monarcas. Parece-me que do ponto de vista pedagógico, é até importante introduzir, com o peso e a medida adequado, histórias sobre princesas, reis, príncipes, infantes, rainhas e assim por diante. Afinal de contas, é também disto que é feita a história deste e de tantos outros países, e por certo se diz, que a melhor fonte de inspiração para um conto é a própria realidade. Entre um e outro estão os mitos e as lendas, de que também estão cheias as figuras monárquicas de Portugal.
A grande discussão em torno destas histórias é a enorme polarização no que respeito diz a papeis de género. Apesar destas estarem longe de serem as únicas histórias em que isto acontece, e por esse motivo não ser, de todo, algo intrínseco ao tema monarquia, é nestas que a fragilidade do género feminino se reflete com mais evidência. É por isso necessário fazer uma desprincesação das histórias. Não se trata de tirar o título de princesa ou príncipe a alguém, que esse sempre o terá como garantido, salvo alguma revolução ou abdicação. Trata-se sim de afastar a ideia de uma princesa associada a papeis de debilidade, fraqueza, de recato e principalmente de dependência para com alguém que a possa vir, eventualmente, a salvar um destes dias. As princesas não precisam, nem ambicionam ficarem com as suas vidas empatadas e à mercê da vontade de terceiros. Em contrapartida, os príncipes também não devem ser sistematicamente associados ao papel de guerreiros e salvadores, porque se for necessário que alguém seja salvo, o que eventualmente pode acontecer, e cuja ajuda queremos que chegue o mais rápido quanto possível, não terá de ser sempre alguém do género feminino, poderá também ser do género masculino, com igual legitimidade em ser ajudado por alguém que também não precisa invariavelmente de ser do género masculino. A fechar, o ideal seria aplicar um modelo que fosse mais parecido com o contexto atual ou com aquele que queremos ver no futuro, com um toque q.b. de fantasia e ficção que é sempre essencial, com monarcas ou sem eles, ou com monarcas e republicanos juntos à mesma mesa. Uma mesa composta por homens e mulheres que felizmente se salvaram sozinhos das histórias que lhes contaram quando eram ainda pequenos.




O Carpinteiro


Esta é a história de um carpinteiro e da sua criação. Desiludido com o mundo, e depois de ter visto a sua última criação tornar-se num menino mentiroso, este carpinteiro decide construir agora algo capaz de mudar o mundo. Sabia que não o poderia fazer apenas com madeira e pregos como havia feito antes, por isso, utilizou peças de uns equipamentos eletrónicos antigos para construir a máquina. Já tinha pensado em quais as caraterísticas que queria ver na sua criação. Aquilo que queria que o seu robot fosse capaz de fazer.
Rapidamente chegou à conclusão de que a sua criação iria aparecer neste mundo da forma mais humana possível. Acreditava que por de entre toda aquela sucata, fosse capaz de fazer surgir algo que se assemelhasse ao que era de carne e osso. O carpinteiro não ambicionava superpoderes nem teletransporte, tinha pavor ao raio laser e aos infravermelhos. Não queria nada dessas coisas para a sua máquina. Na verdade, queria que a sua criação fosse capaz de fazer aquilo que os humanos estavam a fazer cada vez menos. Ajudar os outros, ser solidário, ser gentil, atencioso, prestável, amigo, disponível e tantas outras coisas que os humanos já quase não tinham tempo para ser...
O que o carpinteiro queria era melhorar o mundo, mas com gestos pequenos, acreditando sempre que devemos fazer por melhorar o nosso meio e que assim, podemos ser a mudança que queremos ver no mundo. Ao final de alguns meses a sua criação estava concluída e era altura de testar aquele monte de chapa com traços mais humanos que os dos próprios humanos. Passou a tratar o robot como o filho que nunca teve e que agora poderia, finalmente, ter.
O carpinteiro tinha aproveitado todas as funcionalidades da máquina e tirado proveito do facto de esta não precisar de se alimentar como os humanos, nem de dormir. Assim, durante o dia o robot acompanhava o carpinteiro e adquiria competências sociológicas, para além das que já tinham sido incorporadas nele durante o projeto. Durante a noite, enquanto o carpinteiro dormia, o robot arrumava a casa e ia explorando os seus recantos, mas, principalmente, lia e explorava cada coisa. Tinha necessidade de aprender e de querer saber mais e mais a cada instante.
Ao final de uma semana tinha digerido a informação de todos os livros da biblioteca do carpinteiro. Sabia agora muito sobre técnicas de carpintaria, mas também sobre filosofia, antropologia, ciências naturais, literatura, álgebra, geometria e muitos outros assuntos. O carpinteiro foi se apercebendo de que o robot aprendia mais depressa do que ele imaginava, mas nunca se desfasando das suas competências sociais, para o qual tinha sido criado.
Aos poucos, começou a sair de casa, falava agora com as pessoas, Boa tarde, Como tem passado?, Bem obrigado, Ora essa!, Com a licença, Faça favor.
Quando começou a sociabilizar, o robot foi confrontado com a necessidade de adaptar-se às situações e às pessoas com quem falava. Muitas não davam crédito a um monte de artilharia coberta com madeira, outras eram altivas e impetuosas com ele, assim como também o eram para as outras pessoas. O robot criado para ser gentil e amável estava agora a adquirir traços das pessoas com quem ia comunicando. Retinha cada palavra e cada expressão como se fosse uma criança a aprender a falar. Ele já conhecia as palavras do dicionário que nele tinha sido instalado, no entanto aprendeu a utilizá-las agora em diferentes contextos e ao final de uns dias assemelhava-se a toda e qualquer pessoa.
As pessoas tinham feito dele mais pessoa do que o carpinteiro alguma vez fora capaz de fazer. Estava igual a todas elas, não se distinguia. Desapareceu assim, como que diluído por entre os demais e não lhe voltaram a chamar robot.

Faca e Garfo

Aparentemente não há nada, intrínseco a cada objeto, que lhe confira um determinado género. Não há nada numa cadeira, isto é, no objeto físico e não na palavra, que a torne feminina, assim como nada há em teto ou chão que tornem estes masculinos. Aliás, a estes últimos, teto e chão, bastará, por vezes, uma mudança de perspetiva, para que possam ser chamados de paredes, e estas, caros leitores, já se inserem no domínio das palavras femininas. Os nomes que lhes damos podem ser masculinos ou femininos, e logo então, essas coisas passam também a sê-lo. São personificadas por nós, que assim lhe avivamos a existência, não apenas com um nome, que esse sempre o têm, mas sobretudo com um género - para não falar de número, por vezes. Façamos jus a esta nossa língua que permite que assim seja. Outras há, em que toda esta introdução não faria sentido, uma vez que nessas línguas, as chamadas coisas, ou os objetos, não são passíveis de género, como se de seres animados se tratassem. Outras ainda há, que atribuindo género aos objetos, estes variam totalmente da nossa língua portuguesa. Acerca disto, poderíamos pensar se, no nosso imaginário, cada objeto assenta bem, ou se pelo contrário não assenta bem, no género que lhe deram. Claro está, que para algo tão inusitado como são os géneros dos objetos, parecerá difícil dar conta quais as características que possam ser associadas ao feminino e ao masculino partindo apenas do nosso universo, que tantas vezes falha e debruça-se sobre ideias pré-concebidas, - aquelas que vai se a ver e não correspondem de todo à realidade, ou ao que ela seria se todos nós, de quando em vez, não exercêssemos essa pressão, uns sobre os outros - acerca do que é masculino e feminino. 
O caso da faca e do garfo é para mim curioso. São estes, dois dos objetos que mais costumam andar a par, e por norma sempre próximos. Onde vem um, logo surge o outro, ajudando, cada um com a sua tarefa, mas para um objetivo comum. Por algum motivo, fruto da imaginação, e influenciado pelo meio e pelas suas demarcadas posições quanto ao género, sempre associei a faca ao masculino e o garfo ao feminino. Precisamente o contrário do género das palavras que associamos a cada um destes dois objetos. Claro que esta ideia assenta em estereótipos, muitas vezes irreflectidos e arbitrários, que vão como que fermentando em cada um de nós ao longo dos anos. Como disse anteriormente, nada há numa faca que a torne, quer feminina, quer masculina. Porém, há algumas características desta que associo ao masculino. A faca é mais comprida do que o garfo e por isso, quando postos lado a lado esta é a mais alta dos dois talheres. Não sendo regra nenhuma, na generalidade das vezes, a altura, é associada ao membro masculino do casal. Pois bem, não com a faca e o garfo, curioso casal, unidos de facto para sempre - matrimónio não sabemos - o que sabemos sim, é que são arrumados nas gavetas, cada um em seu devido lugar, para que misturas não as haja. Por vezes, com as não menos trabalhadeiras colheres no seu meio, mesmo que se tenha convencionado dizer, mais noutros tempos do que no nosso, que entre marido e mulher, não se mete a colher. O garfo, por exclusão de partes o mais baixo, tem os seus três ou quatro dentes apontados para cima, como um verdadeiro tridente em ponto pequeno. São estes que me fazem lembrar os cabelos longos cultivados pelo género feminino mais do que pelo masculino. Não é só a altura que compõe a masculinidade, embora que pretensiosa, que atribuo à senhora dona faca. Dos dois talheres que mais tenho vindo a falar, é a ela que cabe o trabalho de cortar e serrar, exigindo de nós a maior força motora. Pois bem, nesta altura já não parecerá estranho afirmar que, também esta característica se associa, assumo que de forma errónea, mais ao universo masculino, mas à mesa, esta tarefa compete à dona faca. Depois desta fazer o trabalho pesado, ao senhor garfo cabe a tarefa mais prazerosa, e também mais fácil diria eu, de fazer chegar a comida à boca.
No final de contas, faca e garfo seguem cada um para seu lugar, na gaveta de onde outrora saíram, e de onde vão voltar a sair em breve. Tanto estes dois talheres, como os seus parentes próximos, de cabo de madeira e serrilhada, são um bom exemplo para a desconstrução de estereótipos associados ao género.


História do Príncipe que Colecionava Bichos

Era uma vez um castelo rodeado por altos muros. Eram tão altos que, da janela mais alta, do andar mais alto, da torre mais alta só havia luz por alguns instantes em todo o dia. Tudo o resto era sombra, sempre sombra, uma penumbra tal que quase não se distinguia o dia da noite.
Todos no castelo tinham medo do que estava para além dos muros, e embora nunca ninguém tivesse ousado atravessá-los, contavam-se histórias de grandes tormentos e lendas dos enormes bichos que viviam para lá das muralhas do castelo. O medo tomava conta daquela gente.
Perdera-se a conta aos anos que passaram, desde o arremesso da primeira pedra, que viria a fortificar todo o castelo. Daí em diante, vários reis tinham liderado e protegido o reino das muralhas. O mais novo de toda a família real era o príncipe Joa. Com a sua tenra idade, ainda tinha curiosidade de saber o que havia lá fora, no horizonte e para além dele. Todos os outros, por entre histórias tenebrosas e incitações ao medo, acabaram, mais tarde ou mais cedo, por perder essa ideia da sua cabeça.
Um dia, ou noite, Joa volve ao terraço do castelo. Não era frequente ali estar por ser o lugar mais sombrio e destinado ao povo. Com as mãos, foi seguindo pelo muro fora tentando imaginar aquilo em que estava a tocar. Eram pequenos e redondinhos, pensou ele quando duas coisas minúsculas lhe foram parar à palma da mão.
Subindo as escadas de duas em duas, depressa chegou ao andar mais alto do castelo. Só lá conseguiria ver o que tinha encontrado. Com a pouca luz distinguiu uns bichos que se enrolavam e andavam ao redor da sua pequena mão. Com medo, depressa os sacudiu.
Seriam aqueles os temíveis bichos das histórias? Aquilo inquietou o pequeno príncipe, que desde então não pensou em mais nada. 
Todos os dias ia colecionando bichos. Deixou de lhes ter medo. Eram compridos alguns, outros não. Alguns tinham mais de oito patas e outros asas. Começou por separá-los em caixinhas, e depois a dar-lhes nomes. 
Continuou a ouvir, por muito tempo as histórias que todos contavam sobre as criaturas que rodeavam o castelo. Já não acreditava nelas. Parecia, que com o passar do tempo, as criaturas dos contos ficavam ainda maiores e mais temíveis. Uma ameaça crescente para todos eles, embora o castelo nunca tivesse sido atacado antes. 
Quanto mais tempo passava a colecionar aqueles bichos, mais se interessava por eles. Pensou em como nunca tinha visto os bichos das histórias, colossais e ameaçadores, e em como nunca lhe tinham falado dos bichos que ele já tinha visto.
Joa interrogou-se se as muralhas protegiam aquela gente das criaturas de fora, ou se protegiam as criaturas de fora das tolices e loucuras daquela gente. Sem pensar muito, libertou todos os bichos das caixas. Alguns voaram para além das muralhas, outros esconderam-se nos muros.
O Príncipe Joa deu àquelas criaturas, a liberdade que ele próprio não tinha. Dentro das muralhas a sombra e a escuridão perduraram. Quanto aos bichos, esses viveram felizes para sempre.

Romanesco

Não tenho por hábito comer objetos de estudo. Sem dúvida uma bela maneira de introduzir um assunto. Nada melhor do que iniciar uma linha de pensamento com uma conclusão absurda. Não, não tenho esse hábito, porque esses, os objetos, foram sendo arranjados e feitos para um propósito muito específico - o estudo - e não para saciar ou satisfazer as necessidades tão somente fisiológicas de um humano. Confundir estes dois propósitos parece, num primeiro momento, estapafúrdio. Ainda para mais, quando desde pequeninos  somos ensinados que com a comida não se brinca. Por certo esta lição deve estar sempre presente, de acordo. Mas, assim sendo, como poderia então eu brincar com comida? Não se trata de brincar, de uma maneira convencional, como faríamos com tudo aquilo que é tipicamente de brincar, onde não se incluem estes objetos que poderiam muito bem figurar numa obra de arte de natureza morta. 
Tudo isto surgiu na minha cabeça quando olhei para uma couve romanesca. Não querendo saber do seu calibre, ou de qualquer outra característica que fariam de mim imediatamente um potencial comprador, concentrei-me noutra particularidade. Não teria de ser esta variedade em específico, uma vez que não só esta partilha desta característica, mas, nenhuma outra há que seja tão esteticamente atraente como a romanesca – as outras couves que me perdoem. 
A característica de que falo é a sua infinita repetição. Não se assustem aqueles que, por repetição, entendem que esta passará a constar, invariavelmente, nas sopas e saladas e que o seu fundo não se esgota. Não se trata, pois, de um recurso inesgotável. A sua teórica infinidade está confinada à sua área de superfície, e essa, é finita. A couve romanesca é um exemplo evidente de fractal. À parte outros que aparecem na natureza de forma mais subtil, no romanesco esta propriedade, - que não consta na tabela nutricional, mas que é conhecida noutras áreas, - é flagrante. Por certo não interessa ao consumidor comum esta propriedade mais do que a quantidade de proteínas ou de caroteno presentes nesta planta hortícola.
A sua forma espiralizada denuncia a simplicidade, e ao mesmo tempo complexidade, ou, por outras palavras, preguiça, da disposição natural das coisas. Trata-se simplesmente de uma cópia, uma repetição organizada da mesma forma geométrica.
Como quando cortamos brócolos e ficamos com partes mais pequenas do que a inicial, mas com a mesma forma. Caso evidente onde uma teoria matemática pode ser facilmente compreendida com um exemplo concreto, num contexto real. 
Provavelmente é isso que se encontra em comum no romanesco e nas obras de Pollock. E é também isso que se encontra em comum entre os consumidores de um e os primeiros críticos à obra de outro, não viam mais do que, um alimento no primeiro caso, e uma tela salpicada com tinta no segundo.

Vi-te no Deserto a Voar

Escolhi uma história do meu percurso recente! Espero que, não porque a minha memória me atraiçoa para acontecimentos quotidianos com cinco ou mais anos, mas, na esperança de que esta história que agora perpetuo no papel se torne numa boa lembrança daqui a umas décadas. Estávamos em julho deste mesmo ano quando eu, pela primeira vez no meu percurso pessoal, colaborava de forma prolongada com uma associação de educação pré-escolar com inspiração na pedagogia waldorf. Fiquei surpreendido quando visitei o espaço pela primeira vez. Era diferente da realidade que há uns anos atrás me tinham proporcionado enquanto criança. Não conhecia as bases deste método pedagógico, mas tive enorme vontade de o conhecer e de perceber a razão da sua - vim mais tarde a saber - grande popularidade no que diz respeito aos métodos alternativos de educação. Talvez por esse motivo me tivesse encantado particularmente aquele lugar com um toque mágico, lugar de duendes e fadas, onde a comunhão e o respeito pela natureza eram primordiais e onde se sentia uma paz e uma tranquilidade que deveriam ser, sempre, ambiente de eleição para a educação de uma criança – e de qualquer pessoa. Fui aprendendo algo novo a cada dia, como se recolhesse pequenas pistas para aquilo que Steiner tinha formulado uns largos anos antes numa fábrica de cigarros na Alemanha. Era como se, tal como cada uma daquelas crianças, eu próprio estivesse a apreender um mundo novo a cada instante. O espaço dava-me muita informação sobre a pedagogia waldorf, infelizmente não conseguia descodificar grande parte dela sozinho. Soube, mais tarde, que os suaves tons de cor-de-rosa que preenchiam grande parte das cortinas, panos e tapetes do espaço eram propositados. O cor-de-rosa é a cor da primeira infância por desencadear processos cerebrais adequados aquela faixa etária. Os bonecos não tinham expressões faciais bem definidas para que as crianças estimulassem a imaginação e dessem mentalmente expressividade ao boneco com que brincavam. Nada naquela sala estava disposto ao acaso a não ser os brinquedos de feltro, lã e madeira dispersos pelo chão depois das brincadeiras. No exterior, árvores de fruto com borboletas de feltro penduradas, uma rede de pano para baloiçar, um espaço com relva que transporta consigo a liberdade de uma criança a correr, a saltar, ou a fazer castelos na areia e na terra. A liberdade de uma criança que bule em tudo e procura descobrir a textura das coisas, o seu paladar, o seu cheiro… 
Durante a brincadeira um dos meninos diz-me, Eu já te conhecia. Do deserto. Pus-me de imediato a pensar porque se teria ele lembrado de um lugar tão inóspito para me ter conhecido. Seriam as influências do Macário Dromedário ou teria aprendido aquela palavra num dos dias anteriores? E, no momento seguinte reafirma, Vi-te no deserto a voar.
A partir desse momento, - mesmo não compreendendo a razão para ele me ter conhecido no deserto - percebi que aquele seria provavelmente o melhor sitio para se guardar memória de alguém.

Passado no Presente

Séculos de história como espécie, deixaram um rasto amplo de descobertas, progressos e pensamentos que se foram impondo. Como é dito triunfalmente na ode, redundância cantada e escrita num jato e à maquina de escrever por AC, o passado está dentro de nós e todo o futuro também já está dentro do presente. De facto, aquilo que somos no presente é o reflexo mais evidente do que fomos no passado. Não somos estrelas, não no sentido literal, mas, da mesma forma que ao olharmos para o céu estamos a ver, não o presente, mas o passado, o mais vulgar objeto, mesmo que aparentemente digno de que o invoquem pela abreviatura de cristo e repleto de contemporaneidade, tem uma história para contar que nos remete para o passado. Pode ser difícil compreender que o melhor museu sobre o passado é o próprio simples e alcançável presente. A realidade atual é essência autêntica de um passado mais ou menos distante. O presente - por abarcar também o passado - reconhece apenas um pretérito, o imperfeito. Um pretérito continuado que se prolongou até ao presente. Desta forma, somos um espelho do passado e um reflexo, se tal metáfora puder ser assim usada, do futuro. Como o passado é parte fundamental do que somos hoje, o presente, por sua vez, é já parte irreversivelmente importante do que será o futuro.
É a partir deste ponto de vista transversal a épocas e eventos, e que despreza a orientação no tempo, que surge a triste, mas real constatação de que existem múltiplas estruturas análogas na dicotomia passado-presente. Continuamos a assistir aos jogos nos coliseus do império romano, com as multidões a vibrar com a glória ou fracasso dos guerreiros, agora chamados de estádios de futebol e sem que se atirem pães para as bancadas. Mudam-se os tempos, permanecem algumas vontades. E mesmo sendo todo o mundo constituído de mudança, há coisas que teimam em não mudar. Sobre estas semelhanças há essencialmente duas coisas a reter. Note-se que os mesmos princípios poderiam ser aplicados a toda e qualquer coisa que tenha perdurado no tempo sem que as mais divergentes teorias e movimentos as tenham abalado o suficiente. A primeira é que, passados uns largos séculos, com todos os seus acontecimentos peculiares, onde se viu gente espantosa nascer e morrer, onde se assistiu a eclipses lunares embora conhecidos por outros nomes, onde se enfrentaram invasões e se viram monarquias a serem depostas, este modelo de espetáculo continua a ser largamente apreciado em todo o mundo e a juntar multidões. Outros espetáculos há, que de forma menos ou mais profana também conseguem fazer chegar até si e são por sua vez demonstrações de uma dinâmica de grupo muito curiosa. Perdurou até aos nossos dias como lembrança viva de um modelo que já era tido como capaz de assegurar tempo de qualidade a uma larga audiência. A segunda, em consequência da primeira, faz-nos perceber o porquê de tal ter subsistido, - certo é que com as mudanças que as décadas foram impondo - até aos nossos dias. Se este modelo continua a guiar e, quase que a comandar o comportamento de um grupo alargado de pessoas, pode ser usado para os mesmos fins que eram usadas as arenas na antiga Roma. A César o que é de César!

Apontamento sobre Refeições

Não ter televisão é um bom indicador de que uma refeição pode correr bem. Na verdade, uma televisão à mesa pode ser (ou já será mesmo) a intromissão mais subtil a que o ser humano já se encontra plenamente habituado. De mansinho nas salas, nas cozinhas e noutras divisões da casa, a televisão ocupa um lugar cativo que já só a ela pertence e que não se deixa facilmente substituir, a não ser pelos seus pares mais pessoais, telemóvel, tablets, que embora sejam aparelhos dados às comunicações, só vieram, contrariamente à função para o qual foram criados, dificultar uma comunicação fluida e um diálogo à mesa. Quanto à televisão, já não questionamos a sua presença, notamos pois a sua falta. Não nos incomodamos com o barulho dela por cima da nossa voz, notamos pois se estivermos a falar com plena ausência dos ruídos produzidos pela chamada caixa mágica. Gostamos de falar por cima dela, sobrepondo a nossa voz como uma autoridade. Algo que está tão intrinsecamente presente que diferente e estranha é uma realidade sem ela. A televisão tem vindo incessantemente a conduzir as conversas durante as refeições. Se idealmente a hora das refeições servia para conversar em família, com televisão essa conversa, que naturalmente continua a acontecer, é conduzida de uma determinada forma, mediada pelo conteúdo televisivo, sem que sequer demos conta. E mais do que isso, tem sido, não raras vezes, inanimado, estático, fixo, e ainda assim deixamos que seja este o único corpo com voz, que tome a palavra que deveria ser, por direito, nossa. Sejam elas mais pequenas, em formato de caixa, maiores, ou mais finas, vieram todas, por sua vez intrometer-se nas refeições à mesa. Como um de fora, que tem as suas histórias para contar e para partilhar.

Língua

Há uma língua portuguesa que não é falada por ninguém. Uma língua portuguesa padrão e regida por convenções bem definidas. Apesar disso, a língua portuguesa expressa-se de tantas maneiras diferentes, quantas as pessoas que a falam. São aproximadamente onze milhões de diferentes manifestações do português, língua oficial, só em território português. Nenhuma delas pode ser considerada errada, tão-pouco nenhuma pode ser hierarquizada, todas são válidas, corretas e objecto de estudo, e contudo, não há uma só que obedeça a todas as convenções da gramática do português padrão atual. Por outras palavras, não há ninguém que sempre respeite todas as regras de escrita e oralidade da língua. Este conceito de desrespeito e infracção às normas linguísticas, não é exclusivo dos falantes da língua portuguesa. Não é característica única deste povo a rebeldia latente em desobedecer à gramática portuguesa. Nada faz dos portugueses mais indisciplinados do que os demais povos. De facto, não há uma única língua que seja falada, em toda a sua plenitude, segundo convenções pré-estabelecidas. Esta quebra generalizada entre teoria e prática é do conhecimento de linguistas e está também muito presente no senso comum, na conceção generalizada de gramática e oralidade. Apesar de não existir uniformidade na expressão e escrita do português, as diversas formas de expressão existentes são essenciais e preciosas para que a língua continue constantemente a evoluir. Não obedecer a todas as convenções gramaticais é normal, e espante-se, se lhe disser que, os agora considerados poetas maiores e grandes escritores da língua portuguesa, também em seu tempo desobedeceram e suplantaram regras então tidas como as únicas gramaticalmente aceitáveis. Todas as regras gramaticais da língua não passam de convenções temporárias, frágeis e passiveis de mudanças, que estão em constante alteração, não havendo maneira de as impedir. Essas mudanças são ditadas pelos falantes. A língua tem as suas regras assentes na expressão oral e escrita, e consequentemente, são os falantes que moldam as regras da língua e não o contrário. A língua sofreu diversas alterações ao longo dos séculos. Não se entenda o emprego do verbo sofrer como algo doloroso e angustiante. Na verdade, a língua não sentiu nada disso. Quero dizer que essas alterações são normais, e continuarão a ocorrer, mesmo que o mais patriota dos portugueses a tome como uma afronta a um dos maiores símbolos da nação, a língua.

Personagens

Há esperança que um dia todos estes seres criados, e criados no sentido de concebidos e de servos, se levantem e se apresentem em tão familiar ambiente. Que se ergam lá do sítio onde estiverem e caminhem entre nós como até agora o têm feito, não tão raras vezes e de forma mais ou menos impercetível. São eles os muitos e as muitas com ou sem nome que nos invadem sem existirem, existindo tão-somente em nós. Que particular espécie de parasitas que se nos entranham e vão dando sintomas de nos possuírem mais do que de nos pertencerem. A sua quase existência confinada a páginas impressas e a manuscritos transforma-se progressivamente numa existência vária, múltipla, que toma lugar em numerosas criaturas. Somos nós, os carrascos desta sentença, a lenha desse fogo. Meros escravos por haver, que serviram outrora a quem os criou, e que vão subtilmente escravizando quem os lê. Que seja um descargo de consciência usar estes seres criados como marionetas dos seus criadores, para afastar de cabeças tolas a ideia de que, criador e criação partilham afinal as mesmas ideias. Se for esse o caso, que se ponha quanto de perigoso pareça existir para nos corroborar ideias e pensamentos embrionários em personagens fictícias que garantam o afastamento necessário entre o inventor de pensamentos perigosos e aquele que transmitirá tal ideia como sendo sua. Nada existirá de físico em transmitir uma ideia nem em retê-la na memória. Personagens fictícias não são dotadas de palpabilidade nem de uma existência concreta, têm a sua esfera existencial confinada a páginas de livros e à imaginação de cada leitor. De facto, algumas personagens, mais do que se manifestarem em nós, fazem-se ser vistas nos outros. Ainda se vê um Dâmaso Salcede a descer a rua. Acompanhamos uma Madame Bovary que procura a plena satisfação na vida. Observamos um ou outro Napoleão, o porco Berkshire, sempre que uma voz mais altiva e categórica se alevanta. Por esta razão, se julgamos proveitosa a manifestação de algumas personagens em nós, já outras, somente nos envergonham à mais pequena manifestação. As pessoas são personagens tipo que inspiram estas e por estas se deixam inspirar. De uma forma ou de outra todos nós nos identificamos com uma qualquer personagem de novela, romance, conto, drama ou até poesia. Figuras com personalidade, sem carne nem osso, mas com uma existência ampla. São eles que nos desassossegam e nos mudam. São eles que nos perturbam e ainda assim é a eles que dedicamos grande parte do tempo. Um masoquismo da alma que se torna difícil compreender. Mesmo em pleno processo de parasitação, ficamos agarrados a tais criaturas sem rosto nem identificação fiscal. Não nos desprendemos deles, andam sempre connosco. Uma multidão imensa, que cabe em nós.

Crença

Um escritor português disse um dia, "(...) o planeta seria muito mais pacífico se todos fôssemos ateus." Quero para mim o espírito desta frase, transformada a forma para a casar como eu sou. O planeta seria muito mais pacífico se todos tivéssemos as mesmas crenças. Tanta gente se diz fazer isto e aquilo, tantos os que correm demasiado, que são sublimes só porque o são, que se deixam viver triunfantemente e aparentam nem dar conta disso. Galopantes como cavalos de corrida, bustos de corpo e vaidosos porque o são por natureza. Mas afinal, onde estão os fracos, onde vivem os cobardes, aqueles que passam sempre à margem disto e daquilo e que vão admitindo fazer aquilo a que alguns convencionaram chamar de blasfémia. É senão blasfémia bastante não admitir que qualquer um, por mais beato que seja, pratica blasfémias várias. Fórmula irredutível para o bem estar comum que não me satisfaz por completo mas que escrito, não serve para refutar a primeira afirmação mas para generalizar aquilo que poderia ser entendido como a ausência de diversidade de ideologias, um dos poucos caminhos para a tão procurada paz, e como parece ser inato à nossa espécie divergir com a diferença, não se diz que, O mundo seria muito mais pacífico se todos fôssemos tolerantes, tomássemos o diferente como igual, mas sim se todos fôssemos mais ou menos parecidos, que as diferenças por irrelevantes ou pequenas, fossem sempre tidas como benéficas e nunca como motivo de segregação. A ideia de ausência de ideias não me pode agradar em momento algum. Muito pérfida seria esta espécie se apenas estivesse em paz na ausência de diversidade e de crenças variadas. É humano demais ter fé e acreditar em transcendências e ver esperança em coisas não visíveis aos olhos humanos. Pensar é ser crente, que não há outro bicho que se aventure nestas andanças de ser mero joguete às mãos de um deus do qual pouco sabemos. Felizes daqueles que não se preocupam com estas questões. Que vêem no tempo, não mais do que o próprio tempo e que aceitam uma boa colheita, não por mão de deus mas porque se reuniram as condições para que a colheita fosse boa. Procurar um caminho, uma doutrina que nos diga afinal o que cá andamos nós a fazer, mesmo que esse caminho seja apenas uma possibilidade de entre vários caminhos, caminhos imensos que podemos considerar infinitos, mas que nem disso temos total certeza. Negar a fé que há em nós é tirar do homo sapiens sapiens quanto de humano se diz haver nesta espécie. Muito pouco seremos sem isso. Quando alguém se diz sem-deus, deixa num completo vazio a necessidade insaciável e quase carnal de acreditar nalguma coisa. E que tantos sem-deus fazem deuses seus outras tantas realidades mais ou menos palpáveis? Religiões fazem-se a um ritmo vertiginoso, num tempo em que se deixou de usar a palavra heresia. Caiu em desuso, - e bem -, esta e tantas outras que não têm hoje utilidade senão para as páginas dos grandes volumes da história mundial. Religiões fazem-se em estádios, em praças, auditórios, salas de aula e em tantos outros sítios. É um credo cada vez mais comum achar que são perigosas todas as crenças dogmáticas. Aquelas que enfileirem punhados de gente em direção a alguma coisa que não se sabe muito bem o que é. Mais perigoso ainda é não ver que essas tais crenças vão para além das paredes de qualquer edificação onde se diz ser a casa de um tal deus, todo-poderoso, divino, altíssimo, supremo e quantas características não humanas lhe pertençam só a ele. Crenças nascem em qualquer lugar, e nem sempre se lhes está associado um deus, será talvez este o maior perigo. Se temos religiões em forma de deus ou deuses, temos muitas mais que não se denominam assim mas que são na sua essência, iguais às tantas outras. E agora, onde está deus?

Dia de Reis

Não me puseram o nome Baltasar. Não me puseram o nome Gaspar, nem ousaram chamar-me Belchior. Vieram os três por sua ordem, cada qual com um presente para oferecer ao recém-nascido menino que havia despertado tal curiosidade aos reis magos. Passou a ser para sempre o dia de reis aquando da sua chegada, contavam-se seis dias do começo do ano. Acaso havia eu de nascer nesse mesmo dia, uns tantos séculos depois, dia seis de janeiro. E porque já se convencionou, por ocasião ou bom costume, por um nome alusivo ao dia de nascimento, eu poderia muito bem ser hoje homónimo de um desses reis, Gaspar, Belchior ou Baltasar. Desprezando regras e convenções do registo civil deste país que para efeitos de comunhão consideraremos que aceitariam qualquer um destes nomes. Também não me puseram o nome Reinaldo. Embora não conste que este dia seis se tenha assim chamado por obra de um Reinaldo, o prefixo rei que este nome tem o privilégio de possuir é por si só tentador. Indo ainda a outros reis, que não os magos, deste pais ou de outros, de agora ou de outrora, de qualquer dinastia, reais ou ficcionais, fica a lista de possíveis nomes bem mais extensa. Um enorme rol de Henriques, Joões, Sanchos, Pedros, Migueis, Filipes, Artures, Fernandos, Davides, Franciscos, Luís ou Carlos. Juntando os fictícios aos reais, Joffrey, Tommen, Robert ou Stannis. Ainda assim havia de ser outra a inspiração do meu nome resultado de influências do qual a existência eu próprio desconheço. Não remontaram a um tal poeta da escola de Epicuro e de Zenão de Cicio, médico que nunca exerceu, latinista de formação e amante da cultura clássica. Não me puseram o nome de Ricardo. Não o nome dele nem o próprio nome, que em verdade os poemas de Ricardo Reis não foram escritos por ele mas antes por alguém com o mesmo nome, como faz por explicar uma das leis de Murphy. Havia de ser outra a inspiração para o meu nome...

Alegoria do Lava Mãos

Os entendidos diziam que não havia gente que mais as mãos lavasse do que esta. Corria então a notícia assim como a água que corria das torneiras para amaciar e lavar as mãos com o auxílio do sabão natural e de outros produtos. Eram estes os mais lavadeiros, aqueles que mais vezes faziam chegar a corredia água às tão carentes mãos. Gabavam-se uns por tão merecido reconhecimento nisto que respeito diz à higiene pessoal, pelo menos quando das mãos se fala, que são por certo a mais exposta e suja parte do corpo desta espécie. E como é característico deste povo já desde os primeiros tempos de civilização, o cumprimento é feito com um sociável aperto de mão. Embora não haja memória que por suja ou mal lavada mão se tenha deixado o cumprimento por fazer, estas querem-se limpas e tratáveis, mesmo que muito alegórico seja repartir a porcaria das mãos como se partilham tantas outras coisas. Que asseadas gentes e de bons costumes que prezam umas mãos bem lavadas que se possam apertar. Levantaram-se então outras vozes que não faziam grande este hábito de lavar as mãos. Argumentava o povo que se as mãos eram muitas vezes lavadas é por certo porque muitas vezes estavam sujas também. Porque sempre a necessidade fez a ocorrência e não seriam estes parvos ainda para com uma mão lavar a outra, e juntas se lavarem uma à outra, estando estas tais mãos já limpas. Instalou-se a discussão naquela terra. Se uns diziam que lavar muitas vezes as mãos era sinal de mãos não raras vezes sujas e cheias de bactérias, outros diziam que só podia ser bom sinal e um costume de se louvar o facto de as mãos serem muitas vezes lavadas. Rapidamente todos tinham opinião sobre o assunto. Para uns, que não viam motivo de exaltação popular num reles assunto de mãos e de água - que lhes tragam antes o vinho -, tudo isto não passava de um bom tema de conversa para chacota e animação. Para outros havia que de extrema importância era apurar o que se andava a passar nestas terras de gente lavadeira de mãos que não se entendia quanto à complacência de proferidas afirmações. Diziam outros que mais valia não se saber de nada disto que o povo sempre está bem quando não é desassossegado com estas questões que são questões que dão que pensar. Hesitavam agora uns de toda a vez que queriam fazer chegar água e sabão às mãos. Tornara-se isto de lavar as mãos um ato tão pensado, que já ninguém o fazia indeliberadamente. Chegara-se porém a uma espécie de consenso para apaziguar uns quantos parvos que tinham conflitos vários nas suas cabeças para tentar resolver o tão ignóbil problema popular. Argumentavam então que vistas as coisas como elas são – embora não se saiba como são as coisas para todo um universo de pessoas, cada uma com a sua sina -, estaríamos bem posicionados se estivéssemos no meio da tabela no que diz respeito aos povos que mais lavam as mãos. Parece impossível que não se contente esta gente com, pelo menos uma vez na vida, um primeiro lugar numa coisa qualquer. Se uns diziam que se é este o povo que mais vezes lava as mãos, então será por certo também este o povo que mais vezes as tem sujas. Contudo, por mais cautela que uma pessoa tenha, por mais que te tente esgueirar destas coisas que nos emporcam as mãos, não há vida que assim se chame que não se depare por vezes com uma ou outra situação de sujar as mãos, mais não seja no sentido figurado da expressão. Desta forma, chegou-se à conclusão que no meio da lista, que é sempre o lugar onde está a virtude, é que deveria constar o nome deste país. Habituados a isto de estar sempre entre as marias, nem muito para lá nem tanto para cá, assim querem permanecer para passar despercebidos entre os demais, que não se destacam nem por estarem em primeiro, nem por estarem em último. O povo voltou a dormir descansado por uma vez. Não se sabe porém como tinham as suas mãos.

Alexander Search

Havia de morrer em Lisboa um jovem poeta. Regressado de Durban fazia apenas três anos, e desembarcando na melancólica capital da saudade, Lisboa, este varão de instrução à inglesa, um verdadeiro gentleman, não durou o tempo bastante para percorrer todos os recantos daquela cidade sobre o Tejo que o vira nascer anos antes. Os breves anos que por aqui estivera não fizeram antever a vasta obra que deixou. Corria lento o ano de 1908 quando, em fevereiro, morre Alexander Seach. Moço de estatura média, fácies clara, que aparava a pouca barba que lhe começava a aparecer no queixo, e com um caminhar, impaciente e desassossegado, como se a tenra idade já tivesse posto nele tamanha amargura e ímpeto esforço. Sofreu como quem vive, não viveu senão o que de mais sincero há no mundo, a dor, o ódio, a luxúria e o medo. Por várias vezes trocou correspondência com o seu amigo, Fernando Pessoa, sempre em inglês e coloquialmente bem redigido. Chorou a morte de uma criança, uma imensa mágoa sobre a brisa marítima atlântica, irmã de Fernando Pessoa, Madalena Henriqueta que morreu a bordo do navio durante o regresso a Portugal. On baby’s death. 
Por alguns anos, foi Alexander Search que escreveu todas as cartas, tornando menos iguais e longos os dias de Fernando Pessoa. Sempre em inglês, sempre carregadas de agonia e de um enorme afastamento entre ele e Deus, a Natureza, o Homem. Descontente com estes, havia Search de estabelecer um pacto com o diabo. A dois de outubro de 1907, Alexander Search assina o compromisso e passa para sempre a ser residente no inferno. Primeira condição, nunca esmorecer nem recuar no propósito de fazer bem à humanidade. Segunda condição, nunca escrever coisas sensuais, ou más a qualquer outro respeito, que possam lesar e prejudicar quem as ler. Terceira condição, nunca esquecer, ao atacar a religião em nome da verdade, que a religião dificilmente pode ser substituída e que o pobre ser humano chora nas trevas. Última condição, nunca esquecer o sofrimento e o padecimento dos homens. E tudo isto tinha que ver com o inferno. Este poeta e contista tinha um cartão de apresentação. Alexander Search, LISBON, Rua da Bella Vista (Lapa), 17, 1º. À data a rua coincidia com a de Fernando António Nogueira Pessoa. Lisboa tornara-se pequena para estes poetas e para os tantos que viriam a nascer nos anos seguintes. 
Havia de nascer em Lisboa um poeta. Corria já adiantado o ano de 1888 quando, em junho treze, nasce, Fernando Pessoa, no quarto andar de um prédio em frente ao teatro São Carlos em Lisboa. Num outro quarto de um outro prédio nascia, no mesmo dia, treze de junho de 1888, Alexander Search. Dois poetas nascidos no mesmo dia, na mesma cidade e não consta que se tenham conhecido, nem sequer consta que se tenham cruzado durante os primeiros anos de vida de ambos passados ainda na capital portuguesa. Sobre se os passos de Search convergiram em algum momento com os de Pessoa, pouco ou nada pode ser dito. Imaginemos apenas dois poetas que estiveram tão próximos sem sequer saber que o estavam, sem se conhecerem, sabendo apenas que haviam de se conhecer anos mais tarde bem longe do sítio onde nasceram. Antes mesmo de Fernando Pessoa se começar a interessar pela literatura, já Alexander Search se interessava pela filosofia hermética. Escreveu sobre Alberto Caeiro. Um mestre. Search queria para si a filosofia de vida que Caeiro dizia não ter. Alberto Caeiro nasceu a dezasseis de abril de 1889, no ano seguinte ao do nascimento de Alexander Search. Os poetas presentes não duraram muito. Caeiro morre aos vinte e seis anos. O seu percurso ficou a meio. Dizem que só assim se conquista a eternidade, ficar a meio, não findar, deixar para um outro o misticismo de um poeta que não acabou.

Um Bolívar e um Bir Manat

As epifanias vêm sempre depois de um café. Pergunto-me se teria notado se ao invés de um café tivesse sido outra coisa qualquer que não despertasse em mim tal atenção. A história começa quando, depois de tomar o meu habitual café da manhã, recebo algumas moedas como troco, dado o acaso de ter pago com uma nota nesse dia. Estava a coloca-las na carteira quando me apercebo, não pelo tamanho da moeda em questão, quase imperceptivelmente mais larga que o euro, mas muito por causa do desenho da coroa que nunca havia visto em nenhuma das diferentes moedas de um euro que até à data já me passaram pelas mãos. Movido de curiosidade pela novidade, que sempre é a condutora para uma maior atenção, fiz uma análise reforçada do aspeto superficial da moeda. Que bonito desenho na coroa, será uma edição especial de comemoração, pensei. Será certamente uma moeda singular e quiçá uma edição limitada e de coleção. Não era. Não se tratava de uma edição limitada, ou de coleção. Era especial sem dúvida, aos olhos de quem a observava, mas não passava de uma moeda que não o euro e que desde logo me suscitou curiosidade. As semelhanças entre as duas moedas são tremendas, ao ponto de esta passar quase completamente despercebida entre os euros. Talvez o seu brilho metálico, característico das moedas novas, tenha dado destaque ao bolívar venezuelano que eu tinha nas mãos. Não acredito, nem quero acreditar, que tenha chegado a mim porque alguém a tenha propositadamente despachado, e assim fazer gato passar por lebre como popularmente se convencionou dizer. Ainda que assim tenha sido, e embora me pudesse sentir ligeiramente enganado – não desconfiando da inocência de quem fez com que o bolívar me chegasse às mãos -, não consigo contudo sentir-me burlado. Não fiquei com aquela sensação de ter sido defraudado como Calouste quando, para gastar a medjdeh que o pai lhe dera como recompensa pelas boas notas, compra um tetradracma de Mileto. Ainda que tenha feito um bom negócio quando mais tarde o vende por uma libra de ouro, bem mais que um medjdeh, fica a saber que se tratava, não de um tetradracma de Mileto, mas de um tetradracma de Siracusa e que o seu valor era bastante superior ao que lhe haviam dado por ele. Apesar de o próprio Calouste ter trapaceado o primeiro vendedor, ficou muito irritado por terem-no ludibriado a ele. Seria este um dos primeiros indícios dos traços rancoroso e enfurecido da personalidade do mais notável e fascinante membro da família Gulbenkian do qual me confesso profundo admirador. Voltando ao meu bolívar venezuelano, e embora monetariamente esta moeda não valha mais do que uns singelos quinze cêntimos, simbolicamente, para uma pessoa como eu que atribui valor a tudo, ou quase tudo, acaba por valer mais do que o valor com que está numismaticamente cotada. Tem valor por não ter, na Europa, monetariamente valor nenhum. Tem valor por servir meramente para ser contemplada como uma preciosidade, como um objecto mítico tal como aquelas moedas antigas, que já não são usadas em parte nenhuma e que, por isso, se lhes tira de cima o peso do uso corredio, banal e quotidiano que damos às moedas. São relíquias como aquela nota turcomana de um bir manat que exibo orgulhosamente numa prateleira de estante, que mesmo com as variáveis, embora que pequenas, das cotações desta unidade monetário e do euro, não fazem com que o câmbio transponha o valor de uns exíguos trinta cêntimos. Apesar disso, o desenho de Muhammet Togrul Beg Türkmen na nota de tons verdes, e por ser de tão longínquo e pouco conhecido país, completamente exótica ao que por cá circula, fez-me adorá-la como Calouste quando, deslumbrado, defrontou pela primeira vez o então tetradracma de Mileto. A moeda teve como fim a contemplação. Havia de colocar o bolívar na estante junto da nota de um bir manat.
As moedas e notas andam por aí numa viagem sem destino, de mão em mão, de carteira em carteira, ora num país ora noutro, valorizando ou desvalorizando, como autênticos travel bugs de geocaching que fazem quilómetros sem que ninguém dê conta, silenciosamente e em simbiose com os seus beneficiários, que não dando por isso, mantêm-nas em circulação.

Matança da Páscoa

Os cristãos-novos de Lisboa apressavam o passo pelas estreitas ruas da cidade, sobre a luzidia calçada portuguesa, polida de tantos por ali passarem. Em todas as ruelas e até nas mais pequenas quelhas ainda definhavam excrementos dos moradores da noite anterior, que envolviam toda a cidade num imundo esterco, sinal da peste que viera ou da que ainda estava por vir, e que assolava todo o povo e velava Lisboa numa densa sombra negra de incerteza e medo.
Faziam-se chegar até ao largo de São Domingos acompanhados também por católicos – os cristãos velhos -, para ouvir a palavra deste deus que lhes arranjaram e que agora também era o deles, ou por imposição aparentavam sê-lo. Ao convento de São Domingos vão chegando cristãos, novos e velhos, que mesmo não sabendo nada de latim, e muito pouco da religião onde foram instruídos, se precipitavam para diante do altar para melhor verem a celebração da missa que não tardaria a começar. Sôfregos de uma resposta divina que fizesse cessar a já tão prolongada seca que fustigava a região, os crentes - mais crentes ainda nestas alturas de preocupação -, imploravam a deus misericórdias várias, cada um à sua maneira e como melhor sabia, que deus se fosse realmente grande e todo-poderoso como se dizia, haveria de os ouvir a todos e saciar as preces daquele povo. O convento já estava repleto de gente que continuava a passar além dos altos muros de um átrio grandioso para presenciarem também a missa e fazerem votos ao senhor. Naquele domingo, dezanove de abril do ano da graça de mil quinhentos e seis, os católicos imploravam sabidamente mais do que em tempos não tão sofridos nem de um sufoco tão grande, deixando-se assim cair cobardemente nas mãos deste deus, que castiga aos Homens pelos seus pecados e os recompensa pelos seus louvores – ou faz tão-somente umas aleatoriedades como as há no universo. Ainda a procissão ia no adro quando um católico, interrompendo de súbito a suplicada reza, se levanta de entre a multidão e aponta para o altar dizendo, Milagre, iluminou-se o rosto de cristo, logo depois outras vozes se levantaram em espantos vários e nas mármores pedras do convento ecoaram frases como, Finalmente uma mensagem de deus, ou ainda, Tenha misericórdia de nós senhor, ou depois ainda, já repetidas vezes, por muitos católicos, Milagre, milagre, milagre. Não tardou até todo o convento ficar envolvido de uma unissonante voz, pasmada e cega que proferia, Milagre. De entre eles surge então uma já tardia voz discordante, Irmãos, então não vedes que é a luz que vem da vela que alumia a figura de cristo crucificado.
Tal observação foi tida como uma afronta aos poderes divinos e inquestionáveis de deus. Repentinamente, católicos enfurecidos pelas proferidas palavras, começaram em protestos de toda a ordem que se adensaram quando alguém gritou tão alto, Herege, que pareceu abalar as brancas e frias paredes do convento e tudo o que elas simbolizavam. Continuaram os gritos, perdeu-se a ordem e dispersando-se dos seus lugares, católicos e cristãos-novos começaram uma troca de acusações e insultuosas injúrias. Dando conta das infames palavras do sefardita, alguns paroquianos agarraram prontamente o homem pelos negros e desgrenhados cabelos e arrastaram-no pelo chão, sem piedade, ao longo do convento de São Domingos até ao largo com o mesmo nome. O homem esperneou, esbracejou e soltou esganiçados gemidos de dor, perguntando talvez que costumes eram aqueles da religião no qual o estavam a tentar instruir. Já na rua debaixo de um sol aberto de primavera, foi espancado, agredido a pontapés pelos católicos que se iam juntando e fazendo da sua raiva, uma única e pertinaz ira de incitação ao ódio.
Incendiando ainda mais os ânimos dos tumultuosos católicos que viam nestes sefarditas e nos restantes cristãos-novos, a razão para todos os males de que o país padecia, um frade dominicano empunhando um crucifixo, começava a incitar a turba contra estes homens e mulheres, chamando-os de criptojudeus e acusando-os de blasfémias várias num discurso inflamado, Heresia, heresia, vede vós irmãos como eles têm o diabo no corpo, vede como chegaram para nos arruinar. Momentos mais tarde e estando já o desgraçado a dar os últimos gemidos depois de ter sido açoitado e lhe terem perfurado o corpo, com o que iam arranjando, para por da essência anímica do seu sangue, o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir para a expulsão e morte dos cristãos-novos e defender a identidade nacional, enuncia ainda o frade, Quem matar a descendência de Israel, terá cem dias de absolvição no mundo que há-de vir. E com vários pedaços de madeira, o mesmo material de que era feita a imagem de cristo e que havia sido iluminado pela vela, desta vez, não só se iria iluminar também esta madeira, mas ardê-la, para que nela ardesse também aquele cristão-novo que vira mais do que aquilo que deveria ter visto. Uma multidão de cerca de quinhentas pessoas, muitas juntando-se às que estavam no convento de São Domingos neste dia e testemunharam os acontecimentos, percorreram as ruas da cidade com forcados, garfos, segadeiras, sachos, forquilhas, paus, pedras e tudo quanto fosse capaz de abater e fazer castigar a cristãos-novos. Todos quantos fossem vistos, eram mortos ali mesmo ou arrastados violentamente para as fogueiras que se tinham acendido por toda a cidade e onde os cristãos-novos eram queimados vivos. Encetava em Lisboa um enorme tumulto de morte aos sefarditas, e a todos aqueles que proferiam uma fé disfarçada e não se comportavam segundo os valores cristãos católicos. Os outros que iam começando a dar conta do alarido geral, adiantavam-se para os parapeitos das janelas para mirar as ruas à procura de sinais do que se estava a passar. Desbandaram-se vários grupos que alastravam pelas sete colinas, onde se juntavam os católicos saídos de suas casas, não para ir orar à casa do senhor mas para manifestar a sua fé fustigando a cristãos-novos e quanta escumalha se lhe aparecesse à frente e fosse passível de degredo ou fogueira. O alcaide de Lisboa apercebendo-se do tamanho motim, tentou defender os cristãos-novos com a ajuda de sessenta homens e dirigindo-se ao largo de São Domingos tenta fazer detenções e apurar os responsáveis por aquela carnificina. De nada adiantou, apercebendo-se o povo de que este magistrado municipal estava do lado dos cristãos-novos, e portanto do lado da blasfémia e do pecado, foi acusado de pactuar com eles. O povo virou-se contra ele, de nada adiantou, foi perseguido e só não acabou na fogueira ao lado dos cristãos-novos que procurava defender, porque se refugiou em casa. As fogueiras foram alimentadas com as acendalhas do império, servos e escravos africanos. Não perderam a rubra cor durante toda a noite, brilhando sobre a margem do rio Tejo e dispersando fumo por toda a cidade, num dia em que quinhentas pessoas foram queimadas em Lisboa.
No dia seguinte a situação agravou-se, apercebendo-se os católicos que os cristãos- novos não haviam saído sequer das suas casas na manhã de segunda-feira e estando já as fogueiras sedentas de carne humana, fizeram ajuntamentos que reuniram mais de mil pessoas e arrombaram as portas das casas onde se sabia que moravam e se escondiam famílias de cristãos-novos. Entraram pelas casas adentro, escancarando as portas, agarraram famílias inteiras, pais, mães, crianças, velhos e novos, empurraram as mulheres grávidas pelas janelas onde as esperavam em baixo na rua, uma multidão com forcados e segadeiras para as esquartejar. Os fetos, envoltos em sangue, são arremessados e pregados como troféus nas forquilhas e espadas. As vítimas eram puxadas para fora das casas até às ruas, arrastadas, esmagadas contra as paredes e lançadas para as fogueiras. Aos homens partiam-lhes os ossos, traziam-nos para o largo de São Domingos, pontapeando-os, amortiçando-os, apedrejando-os, esmurrando-os de tal ordem que poucos eram os que ainda chegavam com vida às brasas das fogueiras. Entraram nas igrejas e arrancaram as imagens de cristo e da nossa senhora, das mãos de cristãos-novos que ali procuravam mostrar a sua fé por aquela doutrina. Todos tiveram o mesmo fim, uns eram açoitados tão violentamente nas ruas onde eram encontrados que morriam ali mesmo, arrefecendo na calçada, os outros, morriam queimados nas fogueiras, que haviam iluminado Lisboa com uma tenebrosa luz de melancolia.
A cólera abrandou na terça-feira, decorrendo dos acontecimentos deste dia e dos dois anteriores, a perda de cerca de três mil vidas. Lisboa haveria de ficar conhecida como cidade da tolerância.

Fim

Por caminhos sinuosos e em terra batida, por estreitas fileiras entre campos de cultivo ou na dura pedra de íngremes montanhas, quer fizesse sol ou chuva, vento ou tempestade, ora encontrando cascalho, pedras soltas e ervas daninhas, ora por autênticos desertos do que quer que seja, daquilo que os desertos não têm, lá ia um burro andrajosamente adornado que não passava despercebido, se necessário fosse dizê-lo, mesmo naquelas terras onde era este o animal mais usado para carga e outros ofícios. Não havia maneira deste errante burro vir a confundir-se no meio dos seus iguais mesmo que a este carga também lhe pesasse no lombo. Sobre este burro ia um colorido caixão que não raras vezes se havia dado como outra coisa qualquer. Em primeiro porque não é hábito destas gentes carregar caixões com o auxílio de um burro e depois, porque se hábito fosse, os caixões haveriam de ser como são os demais, que não tendo a sorte ou o acaso de serem levados ao colo deste teimoso animal, apodrecem na terra da mesma forma juntamente com o corpo que levam dentro. Deste caixão que parece não ter dono senão aquele a quem serve, não se conhece o destino, vai errante numa demanda que aparenta não terminar, quando, pelos factos relatados, esta é uma história de fim, onde tudo já havia terminado antes mesmo de ter começado. O burro fazia-se acompanhar por latas que chocavam umas nas outras abalando assim o silêncio envolvente, a calmaria de planícies de trigo, a pacatez de ruas envolvidas por musgo e onde o sol só espreita por vaidade, outros há onde apenas o leve som dos pássaros se faz ouvir e são esses os primeiros a romperem subitamente dos ramos das árvores e a dispersarem-se pelo ar assim que dão conta de um estranho ruído que antecipa a chegada de tamanha folia, como se barulho fosse preciso fazer para chamar a atenção dos que, não admirados com um burro, que esses sempre os vêm passar de vez em quando, se espantam com as majestosas vestes andaluzas que este adorna. Vestes que nem o mais endinheirado dos senhores, desta ou doutras terras dispõe quer para fugidias e esporádicas cerimónias ou celebrações quer tão somente como fatiota de domingo para levar à casa do senhor. Tão proveitoso traje, de refinados cortes, e um tecido que carece de delicadas mãos para ser trabalhado, e havia de ser um burro, o mais reles animal e com má fama, a levá-lo sobre o amarfanhado pelo. A todo o lado chega o estalar dos chicotes ou o seu eco, confundido o eco com o som da corda a bater sobre si, que mesmo parecendo fortes trovões, dão conta a par do barulho das latas, da euforia geral da procissão. Nem burro serve para carregar com um morto, nem um morto, seja que morto for, serve para ser carregado por um burro, mesmo que a um morto nada se recuse. Este cadáver adiado que procria mais não é do que a razão das festividades a que ousaram chamar de velório. Toda esta folia é dele, mesmo que nunca o venha a saber, nem ninguém saiba em verdade, quem foi outrora este agora cadáver que por certo desejou um fim em tudo contrário aos demais fins - daqueles que têm por vida a sepultura, dos que vivem sem que nada mais lhes diga do que a lição de raiz. À roda dele vão acrobatas e palhaços que fazem acompanhar o passo do burro, ora adiantando-se para a frente deste, ora deixando que os seus saltos e pinotes façam avançar a vagarosa marchar do equídeo. E mesmo saltando de um lado para o outro com alegres passadas, estes palhaços e acrobatas ainda conseguem fazer malabarismo entre si, não dando sequer um passo em falso nem jamais deixando cair uma clave de malabares, um arco, uma bola, uma tocha ou quantos mais objetos houvessem em diferentes trajetórias pelo ar. Em algumas passagens desta viagem sem fim à vista, juntava-se o povo para ver passar o burro enfeitado e o caixão com um rebordo de flores - do qual se conhece a papoila -, quer para apreciar a arte dos palhaços e dos acrobatas, que eram novidade naquelas bandas, quer para ver passar os demais que em altos ruídos se iam juntando ao desfile. Mesmo depois de já ir o burro adiantado, muitos ainda ficavam, julgando voltar a vê-lo passar talvez. Mas não voltaram.

Alegoria do Pi

Havia de ser este o dia em que, sem que nada o fizesse prever, nem um eclipse solar - nem lunar, nem nenhum alinhamento planetário, nem qualquer acontecimento à escala cósmica, nem mesmo à escala microscópica, que seriam revelados mais algarismos do valor de pi do que alguma vez havia sucedido de uma só empreitada. O acontecimento foi tido como marco na historia mundial, - e em particular na história humana, porque, refira-se, só esta particular espécie, até onde a nossa compreensão nos deixa antever, se empenha tanto em descobrir os algarismos que constituem este irracional número. Por muitos algarismos que sejam descobertos do valor de pi, e partindo do axioma que este se trata de um número infinito, pi estará sempre infinitamente incompleto - pouco menos infinitamente incompleto do que quando este não passava de um singelo e arredondado 3,14. Que maçada este caprichoso pi que sendo um único número, não finda em algarismos. E que persistente esta estranha criatura que mesmo sabendo, ou dando como sabido, que não se acabam os trabalhos na desenfreada demanda em busca dos algarismos que constituem o pi, não se dá por vencida nesta guerra, como se fosse possível o infinito dar-se por vencido contra este bicho da terra tão pequeno e tão finito. Vá-se lá saber se existe alguma ordem ou sequência para as decimais de pi ou se todos aqueles algarismos são dispostos como que aleatoriamente uns após os outros. Ainda não se descobriu, certo é porém que até agora naquela aparente infindável sequência numérica, ainda não surgiu nenhum padrão, nada com o qual se pudesse estabelecer uma relação de semelhança. Depois disto, maior descoberta ainda seria a finidade do pi. O antónimo daquilo que tenho vindo a assumir como verdade até então. Imagine-se agora que aquilo que pensávamos ser infinito, afinal não o era. Havia uma altura, não interessa em que ordem dos bilhões de casas decimais, que punha fim a esse tão grande número. E se pi tem fim então é infinitamente mais pequeno do que aquilo que se pensava. Poderemos demorar um ou dois séculos a determinar o seu exato valor, talvez mais, talvez não seja previsível, mas fica novamente a ideia que estaremos infinitamente mais perto de o conseguir do que se pi fosse infinito. Como não há indícios de que termine pi, e não passando tudo isto de uma suposição, deixaremos este assunto para aqueles que nele queiram pensar. A notícia de que tinham sido acrescentados tamanho número de algarismos à já grande lista deles, chegou a todo o mundo em poucas horas. A comunidade científica ficou muito agradada com o passo dado e questionou se haveria algo que não fosse de humano alcance. Os jornais e magazines deram moderado destaque ao pi, que se via agora maior, apesar de teoricamente continuar infinito. Em toda a imprensa, não se encontrou mais do que um artigo com duas colunas de texto sobre este assunto, o que refletiu o interesse da generalidade das pessoas que não deram muita importância a tal facto. Não se encheram praças, não se cruzaram avenidas. Não se celebrou o pi, que apesar de já ter um dia seu, haveria de ser seu também este - e todos os seguintes. Tudo passou com uma leviandade pouco ao nível do famoso número do perímetro do círculo tão admirado em todo o mundo e estudado ao longo de séculos de história. O impacte foi bem menor do que aquilo que se esperava. Descobertas destas não movem multidões, não unem povos, não mudam a vida tal como ela é. O pi é o mesmo e sempre o há de ser, com mais ou menos uns biliões de algarismos conhecidos pelos humanos. Havia de ser este o dia em que, sem que nada o fizesse prever, tudo continuaria na mesma.